Por Amor ao Jogo: Monte Córdova Futebol Clube
Entre campos desgastados, orçamentos curtos e amor à camisola, a 1.ª Divisão Distrital da AF Porto continua a provar que o futebol mais puro vive longe dos holofotes.
Jogadores que trabalham de dia e treinam à noite. Diretores que assumem diversas funções, desde lavar equipamentos a procurar patrocínios no café da terra. Clubes que sobrevivem à custa de paixão e teimosia. Esta é a realidade de quem joga, sofre e sonha no coração do futebol distrital do Porto.

Todas as semanas, às 15:30h, soa o apito inicial, preparando os adeptos para mais uma tarde de emoção. O espaço no balneário é pouco, o 11 inicial equipa-se primeiro, enquanto os suplentes esperam do lado de fora. O relvado sintético está longe de ser perfeito, aliás, nem todos têm a sorte de o ter. O campo e os bancos são ocupados por jogadores que, mesmo depois de uma semana de trabalho, querem dar tudo pelo símbolo que trazem ao peito.
Na 1.ª Divisão Distrital da Associação de Futebol do Porto, o futebol não é feito para ser uma profissão, mas sim para ser um compromisso com a terra, com o grupo e com a história do clube. Jogar a este nível é também resistir às lesões, à falta de acompanhamento, de tempo e de apoios. Acima de tudo, é acreditar que o futebol ainda pode ser puro, verdadeiro e mover uma freguesia.
O Monte Córdova Futebol Clube, sediado em Santo Tirso, é um exemplo real do que significa viver o futebol amador com dedicação. Em funcionamento desde 1981, o clube já conta com 44 anos de história e, apesar de competir no escalão mais baixo do futebol português, é uma verdadeira referência para os habitantes da terra. Em cada jogo, independentemente da distância ou das condições, nunca falta o apoio dos adeptos, movidos por uma paixão que passa de geração em geração. “Desde pequeno acompanho a equipa sénior com o meu pai e sempre me senti ligado ao clube, à sua história e valores”, recorda António Soares, agora jogador da equipa.

Um modelo que nem todos aplaudem
A Divisão em que compete é organizada por séries, desenhadas pela AF Porto tendo em conta a proximidade geográfica dos clubes e o seu nível competitivo. A intenção é clara: evitar que os clubes tenham de fazer deslocações longas e tornar o campeonato mais equilibrado. Ainda assim, este modelo está longe de agradar a todos e não consegue escapar às críticas.
O descontentamento tem vários motivos, mas o principal prende-se com a gestão desequilibrada do calendário e o número de equipas por grupo. “A série em que o MCFC está inserido, tem apenas 13 equipas, o que faz com que haja sempre uma equipa por jornada que não joga”, explica Cristiano Silva, membro da direção do clube. Com o campeonato a começar em setembro e a terminar em abril, o tempo de transição entre épocas torna-se longo e “muitas vezes, nesse tempo, perdem-se elementos da equipa”, acrescenta.
Este problema é sentido principalmente pelos jogadores que salientam que a duração da paragem é responsável por uma quebra no seu ritmo competitivo e compromete o seu desempenho durante os trabalhos de pré-época.
António Soares alerta para a existência de “outro aspeto negativo”, a comunicação por parte da AF Porto. “Nem sempre são transmitidas, de forma atempada, informações sobre alterações de horários, castigos ou regulamentos menores. Além disso, há decisões tomadas pela associação sem consultar os clubes”, lamenta o atleta.
Além das críticas, também surgem sugestões de melhoria. Marco Rego, atleta do clube, defende que seria benéfico que a AFP “baixasse as percentagens que pedem aos clubes”, referindo-se às taxas de inscrições de jogadores e outras despesas associadas à participação dos clubes nesta competição. O jogador acredita que a diminuição destes valores resultaria na oportunidade de mais clubes se juntarem à divisão.
Samuel Araújo – ou ‘Samu’ como é tratado de forma carinhosa pelos colegas de equipa – , considera que “seria importante que houvesse um maior investimento nas condições dos campos e nas infraestruturas dos clubes”, acreditando que com esta ajuda a maior segurança e qualidade nos jogos estariam garantidas.
Apesar das divergências quanto à forma como a competição é organizada, dentro do próprio clube há consciência de que os desafios não se limitam ao que acontece dentro das quatro linhas. As dificuldades estruturais e de gestão fazem parte do quotidiano de quem mantém o MCFC ativo, muitas vezes à custa do esforço e dedicação de quem concilia o futebol com outras responsabilidades pessoais e profissionais.
O amor ao clube nem sempre é suficiente

Cristiano Silva, enquanto diretor, reconhece que “os principais desafios passam pela gestão das receitas e pela gestão do staff”. Nenhum dos membros da direção é profissional nesta área, todos têm outras ocupações fora do clube, o que resulta com que “muitas vezes fiquem trabalhos pendentes que podem impactar diretamente o desempenho do clube”, sublinha.
Um dos fatores que mais compromete a estabilidade financeira é a dificuldade em manter as quotas dos sócios regularizadas. Antigamente, havia quem se deslocasse pela freguesia para as recolher, mas essa disponibilidade deixou de existir e muitos acabam por se esquecer das suas responsabilidades enquanto sócios. “Com cerca de 500 sócios neste momento, se conseguíssemos voltar a ter uma percentagem elevada de regularização, seria uma enorme ajuda financeira para o clube ao longo do ano”, destaca Cristiano.
Com esta falha, a direção do clube é obrigada a procurar outras formas de manter as contas em saldo positivo. Os patrocínios locais, as mensalidades das camadas jovens e a venda de produtos oficiais, são pequenos passos para esse objetivo. O bar do campo, que abre nos dias de jogo, representa também um apoio importante. Ali, entre outras coisas, encontram-se as bifanas do Luís que não deixam ninguém indiferente. São sem dúvida a especialidade da casa e cada adepto de barriga cheia representa um contributo para o clube.
Nestas condições, não há disponibilidade financeira para pagar aos jogadores. E apesar de isso ser uma dificuldade na contratação de novos jogadores, a direção tem outras formas de conseguir atrair e motivar tanto quem vem de novo como quem transita de uma época para a outra. “A melhor maneira de o fazer, achamos nós, é minimizar ao máximo os encargos que todos eles possam ter, tais como, deslocações para o estádio, alimentação e até mesmo em casa de cada um deles, pois toda a roupa utilizada, tanto nos treinos como nos jogos, é oferecida e tratada pelo clube”, explica o diretor. Acrescenta ainda que são oferecidas recompensas monetárias ao plantel “conforme os pontos realizados e os objetivos alcançados” que ficam guardadas na “caixinha” e são normalmente usadas para comprar material ou até para realizar jantares de equipa.
Apesar de todos estes cuidados e incentivos há alturas em que a motivação teima em não aparecer. António revela que é “movido pela vontade de ganhar jogos e quando esta vontade não se traduz em três pontos” sente dificuldade em manter-se motivado para a semana de treinos que se segue.

O desafio de manter a chama acesa
Desde o arranque da época 2025/2026, o Monte Córdova vive uma fase cinzenta, revelando que a falta de motivação não é exclusiva de António, mas um sentimento comum a todo o balneário.
A época começou com o Mister Paulo Queiroz no comando técnico da equipa, uma cara já bem conhecida que estava na sua terceira passagem pelo clube. Com uma nova ideia de jogo que exigia recuar a bola para a defesa sempre que houvesse risco de a perder, os jogadores estavam perante um modelo bem pensado e, acima de tudo, bem explicado, mas que não conseguiam pôr em prática de uma forma, pelo menos, satisfatória.
Esta dificuldade fez-se sentir desde cedo, numa pré-época marcada por apenas três resultados positivos em nove jogos, altura em que a confiança da equipa já começava a dar sinais de fragilidade. Com o início das competições oficiais, nada mudou, a equipa mostrava-se inconsistente em campo, o que se traduzia numa sequência de derrotas que parecia não ter fim.
Perante um cenário como este, os jogadores admitem que, por várias vezes, se sentem mais cansados psicologicamente do que fisicamente, um fator que em nada ajuda a recuperação. Sem recursos para disponibilizar apoio na área da saúde mental, o clube via esta jornada tornar-se ainda mais desgastante. A esta altura Paulo dizia já não ter condições de treinar a equipa e colocava em cima da mesa a sua saída.
Ao fim de seis jornadas em que os resultados estavam longe de ser motivo de orgulho, o clube viu-se confrontado com a dificuldade em aceitar, finalmente, a vontade do treinador em cessar o vínculo e, ao mesmo tempo, continuar a preparar os jogadores para o jogo que teria lugar apenas quatro dias depois.
Com uma semana de treinos pouco consistente e com uma convocatória desenhada pelos capitães da equipa, o Monte Córdova chegava a Codessos, o então sétimo classificado, com uma vontade redobrada de vencer. Embora soasse contraditória, era uma tentativa de dar o pontapé de saída para uma nova fase.
O grito de guerra da equipa, que a tradição dita que seja feito antes de todos os jogos, ecoou pelo balneário com uma força que já há algum tempo não se fazia presente, deixando os jogadores visivelmente emocionados, mas mais confiantes. Com um estilo de jogo mais livre, mas ainda sem um novo comando técnico, os jogadores aproveitaram as quatros linhas para fazer o que mais gostam: jogar sem preocupações.
O resultado falou por si, uma vitória por 5-1 que demonstrou que, a este nível, as ideias têm de estar bem assentes para que a pressão não ganhe demasiado espaço no balneário. Ficou também claro que, na última divisão de Portugal, “o futebol é um hobbie” e que se joga “por gosto e não por obrigação”, nas palavras descontraídas de Marco Rego.

“Sinto que jogo com amigos, mas com um objetivo claro”, reforça Marco, resumindo de forma clara a experiência de quem veste a camisola do Monte Córdova. Para António, “é difícil descrever a sensação de entrar em campo com a camisola do Monte Córdova”, uma emoção que mistura orgulho, amizade e responsabilidade. ‘Samu’ acrescenta que “há um forte sentido de equipa e apoio mútuo, tanto dentro como fora de campo”, evidenciando que, para este clube, o futebol vai muito além dos resultados.

Para lá das quatro linhas, onde a competição impõe o seu ritmo, em Monte Córdova respira-se de forma diferente. Ali, a rigidez das táticas dadas pelo treinador acaba por dar lugar a algo mais simples. Mais do que jogadores à procura de pontos, vê-se um grupo de amigos que insiste em transformar cada jogo num cenário de união. É essa dedicação invisível, feita de diversão e compromisso, que serve de motor para o clube.


Iara Cardoso Monteiro, Novembro de 2025