Um Caminho de Fé e de História no Santuário do Bom Jesus

O ar quente e leve de Braga faz-se notar à medida que subimos a Escadaria dos Cinco Sentidos, o segundo lance dos escadórios do Bom Jesus do Monte. A partir deste ponto, conseguimos ter uma visão envolvente do Santuário. Cada degrau alcançado separa-nos do barulho da cidade e convida-nos a entrar na calma do lugar que a muitos “transmite paz”, como descreve Maria Antónia, guia turística que visita o santuário “quase todos os meses e vários dias ao mês”.
A história do Bom Jesus do Monte remonta ao século XIV onde, nesta paragem de estilo barroco, se passou a contemplar uma das maiores rotas sagradas da Europa. As primeiras evidências de presença humana datam da Idade Média, período em que se acredita ter sido erguida, no topo do monte, uma pequena ermida dedicada à Santa Cruz, logo transformada num local de culto e de devoção cristã. Ao longo dos séculos XIV e XV, a capela permaneceu como um local de peregrinações, onde a fé assumia um papel central.
Foi no século XVI que o arcebispo D. Frei Agostinho de Jesus promoveu aí melhorias e incentivou a criação de uma Confraria, com o objetivo de melhor organizar e preservar o espaço religioso que ali se implantou. Varico Pereira, atual vice-presidente da Confraria, afirma que, nessa altura, “era mais importante ser presidente da Confraria do Bom Jesus do que ser presidente da Câmara Municipal de Braga”.
Apesar dos grandes progressos conquistados aquando da sua construção, este local nem sempre foi mantido em bom estado. Em 1720, Dom Rodrigo de Moura Teles promoveu um grande projeto de renovação que visava revitalizar o templo que, por esta altura, estava abandonado. Foi também nesta obra que construíram as capelas da Via-Sacra e o “Escadório dos Cinco Sentidos”. Mais tarde, já em 1784, surgiu a necessidade de aumentar o Santuário devido à grande afluência de pessoas, marcando, assim, uma nova etapa da história do Bom Jesus do Monte.
A partir desta data, o local tornou-se parecido com aquilo que vemos hoje, os escadórios em ziguezague, as esculturas e fontes em cada patamar e a igreja, cujo a planta é uma cruz latina. Assim, o Santuário, carregado de história e significado tornou-se ponto de grande relevância a nível religioso, “se pensarmos, no século XIX, o Santuário do Bom Jesus era o mais importante do país”, salienta Varico Pereira.
O Santuário do Bom Jesus do Monte é composto por três escadórios: o do Pórtico, o dos Cinco Sentidos e o das Três Virtudes. O percurso inicia-se no arco do Pórtico, com um brasão datado de 1723, e estende-se por 376 degraus entre vegetação densa até ao largo seguinte. O “Escadório dos Cincos Sentidos” desenvolve-se em cinco lanços de escadas, intercalados por patamares com fontes representativas aos cinco sentidos. Já o “Escadório das Três Virtudes”, possui três fontes dedicadas às virtudes religiosas: a Fé, a Esperança e a Caridade.
O acesso pode também ser feito por funicular, inaugurado em 1882, obra de Raul Mesnier e promovida por Manuel Joaquim Gomes. É o mais antigo do mundo a funcionar com contrapeso de água e liga Braga ao Santuário em poucos minutos. Fábio Rio, trabalhador administrativo da Confraria, destaca a importância do elevador “que é um grande ativo turístico do Santuário”.
A candidatura do Bom Jesus do Monte a Património Mundial da UNESCO “foi pensada há mais de 20 anos”, explica o vice-presidente da Confraria. “Começaram-se a fazer os primeiros estudos prévios, incluindo relatórios que uma equipa científica foi elaborando sobre aquilo que é, por exemplo, o valor patrimonial do Bom Jesus que,do ponto de vista universal, se revela excecional”. Uma das pesquisas realizadas teve como objetivo perceber que representações do Bom Jesus existem fora de Braga ou até no estrangeiro. “No Brasil, existe o Santuário de Congonhas, que já é Património Mundial desde 1994. E está estudado, e cientificamente provado, que é uma réplica do Bom Jesus”. Tal acrescenta, demonstra que o Bom Jesus “ultrapassa as fronteiras da sua influência”.
A estrutura e beleza surpreendentes deste local mereceram, em 2019, uma distinção por parte da UNESCO. Foi a partir deste ano que o Bom Jesus do Monte passou a ser considerado Património Mundial da Humanidade. Essa classificação destaca a experiência de quem visita o local, uma vez que, nas palavras de Maria Antónia, ao “vir a Braga faz todo o sentido vir ao Bom Jesus”.
Atualmente, o Bom Jesus do Monte encontra-se preparado para receber peregrinos e turistas, conta com infraestruturas que têm como objetivo “tornar a experiência agradável e até inesquecível” para quem o visita, explica um trabalhador anónimo do Hotel do Elevador. “Temos a missão de receber bem”, argumenta Fábio Rio.
No entanto, os visitantes já começam a apontar algumas deficiências ao estado do recinto. Deolinda Sousa, moradora de Braga, que percorre os escadórios diariamente, conseguindo, por isso, ver de perto o desgaste do local, diz que “o lago está sujo, precisando de alguma intervenção, assim como os escadórios que estão a ficar um bocadinho degradados”.
A gestão e conservação do Santuário do Bom Jesus do Monte estão a cargo da Confraria do Bom Jesus, instituição fundada em 1629 com o objetivo de promover o culto e zelar pela manutenção do património do local. Ao longo dos séculos, a Confraria desempenhou um papel crucial na expansão e preservação do santuário, organizando eventos religiosos e garantindo a continuidade das tradições ligadas à devoção. “É uma das instituições mais antigas da cidade de Braga que teve, tem e terá um papel muito relevante não só no contexto do santuário, mas também no contexto da cidade e da região”, constata Varico Pereira.
O Bom Jesus do Monte continua a afirmar-se como um espaço de espiritualidade, património e encontro com a natureza. Apesar dos desafios de conservação, permanece um símbolo vivo da identidade bracarense e da devoção que atravessa gerações. Entre degraus, fontes e memórias, o santuário mantém-se como um lugar de passagem obrigatória para quem procura momentos de reflexão.
Iara Cardoso Monteiro e Leonor Almeida, Maio de 2025